terça-feira, 11 de agosto de 2015

Tributo a Manuel Maria Barbosa du Bocage, 15 Set 1765 // 21 Dez 1805

Tu, Vã Filosofia


Tu, vã Filosofia, embora aviltes
Os crentes nas visões do pensamento,
Turvo clarão de raciocínios tristes
Por entre sombras nos conduz, e a mente,
Rastejando a verdade, a desencanta;
Nem doloroso espírito se ilude,
Se o que, dormindo, creu, crê, despertando.
Até no afortunado a vida é sonho
(Sonho, que lá no fim se verifica),
E ansioso pesadelo em mim, que a choro,
Em mim, que provo o fel da desventura,
Desde que levantei, que abri, carpindo,
Os olhos infantis à luz primeira;
Em mim, que fui, que sou de Amor o escravo,
E a vítima serei, e o desengano
Da suprema paixão, por ti cantada
Em versos imortais, como o princípio
Etéreo, criador, de que emanaram.

Bocage, in 'Ao Senhor Joaquim Severino Ferraz de Campos (Epístola - excerto)'

Tu, Vã Ciência


Tu, vã ciência, embora aviltes
Aos descrentes de uma outra fé
Em teses e hipóteses publicadas
Sem que provada seja por essa gente
Arrastas a verdade pelo pântanos do saber,
Na ilusão que na fé nada existe,
Mas não me iludo eu ser pensante,
Que de ti vem escrevente e bem-falante,
Apenas o recebo como complemento,
Se na vida tudo é sonho,
Adormeço, creio e vivo, no acordar possante,
(Sonho, que lá no fim se verifica),
Que pesadelos são reais.
Afastai-me desses males, alguns até mortais
Que ao acordar agora gritando,
A infantilidade e inocência com que me dou
No convívio sou traído, bebendo fel
Desencanto, com que me atrais,
Buscando apenas proveito,
Nos versos, emanados, escritos,
Onde buscas vaidade!...

Alberto Cuddel




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