sábado, 26 de setembro de 2015

"Escolhi Amar-te" - XV




Acordo de um pesadelo, sabendo que não havia sonhado, tudo é tão real, como posso estar acordado, alguém tinha quebrado, alguém se tinha desleixado, e naquela manhã de outono, ao acordar, tudo tinha mudado. Alguém se esquecera, tu tinhas esquecido de escolher, apenas acordas-te, maquinalmente para os teus afazeres diários, nas tuas infinitas preocupações de mãe, nos trabalhos domésticos numa repetição sem fim, nas tuas suspeitas e infinitas inseguranças, tudo em ti é pensamento dissonante, maquinalmente ação. Ao acordar, não existiu escolha, não existiu decisão, não existiu sentir, apenas um acordar. Percebi que eu não existia ali, que tudo em ti era ideia, mas que eu não estava lá, tudo em ti era trabalho, tudo em ti era ação, mas eu não estava lá.

Percebi então, que momentaneamente eu deixei de existir, mesmo assim estava ali, eu tinha também acordado, eu era real, não um sonho, não um mero ser astral, invisível, no teu desenrolar do novelo condutor das preocupações, eu não estava nesse novelo, não fazia parte dele, mas no entanto, eu estava ali, era o suporte fiel, o garante que o mesmo não se partia, não se quebrava, que tudo seguia um padrão controlado.

Padrões desenhados mentalmente, rotinas, consequências, tudo estudado até à exaustão da perfeição, do pequeno-almoço à roupa, do fazer a cama, até ao endireitar do quadro, da loiça cuidadosamente colocada na máquina, num alinhamento perfeito, as toalhas de rosto cuidadosamente dobradas, como se nunca fossem usadas, parque ao bater da porta, no nosso lar, nunca tivesse morado ninguém, tudo fica perfeito, aguardando na capsula do tempo o nosso regresso.

Acordo de um pesadelo, sabendo que não havia sonhado, tudo é tão real, como posso estar acordado, não decidiste escolher-me esta manhã, mas sei que o farias, se tudo não fosse temporalmente tão apertado, se tudo não fosse confrangedoramente tão controlado pelo incauto ponteiro dos segundos, por isso amor, deixa para lá, hoje apenas eu escolho Amar-te!
 
 
Enviar um comentário