segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Sonho




Sonho

Podem as asas caírem
O voo circular terminar
O movimento quedar
Não resigno à mortalidade do corpo!

Trémulas mãos seguram-me a alma
A vida esvai-se nos círculos da morte
No mundo resido, doce perfume exala
Do ser que te sonhou a triste sorte.

Embala-me a alma em nuvens de algodão
Descendes de mim mar da realidade
Ascende em ti a doce e fulgosa paixão
Aplaca no teu corpo a dor da saudade!


Alberto Cuddel®
In: Palavras que circulam - II



Exercício poético V



Exercício poético V

“Nos jardins desertos da alma
Mariposas de luz revoam
Sugando o néctar da brutalidade
Beijando coração coagido de criança”
Lace Luiza

O triste arrastar dos pés pelo chão
As lágrimas que lhe tingem a roupa
Denunciam o sofrimento do coração
Mão pesada sem noção nada poupa.

Abandono voraz, criança largada ao mundo,
Para quê? Porquê? Sangue do teu sangue,
Tempo passado nem pensaste um segundo,
Antes tu entregue á morte, que ao dengue.

Perdem-se por ruas estreitas, meninos de rua,
Arrastando descalços, latas vazias de esmolas
Por uma responsabilidade só e exclusiva tua.

Não olhas para o lado e segues o caminho,
Pede pão, carinho, alegria e umas solas,
Mas triste de mão estendida continua sozinho!

Alberto Cuddel®

Na gaveta


Na gaveta
 
Em vagas horas
Em que o silêncio se estende
Vagueia redondo o pensamento
Perdido por entre os espaços da mente.
 
Nuamente na orfandade latente
Perdem-se ideias, sentir que mente,
Seguem correntes e brisas modistas
Sem conteúdo, apenas comodistas
Cópias, ideias curtamente repetidas
Ideias sombrias e sujas, escorregadias
Politicamente e socialmente aceitáveis
Mornas, travestidas de conceitos morais
Ideias em versos tristes, sem apoios sociais!
 
Em vagas horas
Em que silêncio se estende
Escrevo e escondo
Pensamento redondo
Que me liberta a alma,
Ao pó, na escuridão da gaveta,
Poesia escrita a tinta preta,
Tantas vezes tingida de sangue!
 
Alberto Cuddel®
In: Palavras que circulam - I


domingo, 28 de agosto de 2016

Exercício poético IV





Exercício poético IV


“Faz da minha pele o teu calor,
Que já de mim, teu corpo embrulha.
Quente como brasa – Essa fagulha...
Queima em sentir teu néctar incolor.”

luan kleyton

Desço de mim pelo sangue fervente,
Poente sentir, abandonado dormente,
Almas que pela manhã anoitecem,
Lágrimas caídas em si só arrefecem,
Descontextualizo cada virgula escrita,
Cada palavra gemida em si prescrita,
Calo palavras vãs, onde no olhar me cego,
De nada me aproveita se tudo esqueço,
No engano serrano, nada de ti conheço,
Se de mim conheço, tudo escrevo, nada nego,
Peco-me das rosas, com que perde a alma,
Labirinto do sentir, das ideias sem saída,
Perdido na morte, perdido na tua vida,
Caio sobre folhas mortas, espero calma,
No mundo cinzento onde me deito,
Não me atrevo por sonhos diversos.
Em busca do teu corpo perfeito,
Inscrito na arrogância dos meus versos!

Olha-me os olhos, vê o que não vejo
Alma cansada, abrasadoramente dormente...
No meu corpo, definha de ti o desejo,
Cala-me a voz, e o sonho que hoje ainda mente!

Alberto Cuddel®

Exercício poético III




“Quantas vezes o silêncio
Grita agitando as palavras
Que ainda não foram escritas!”

Pode ser o silêncio o mero acanhamento da tacanhez envergonhada das tuas palavras politicamente incorrectas, revestidas pela emoção da inverdade em ti contida, ou uma mera e raivosa vendeta pessoal, ou meramente na tua insignificância nada tens a dizer.

Silêncio corrói e mina,
Silêncio destrói e contamina,
Silêncio priva e medita,
Silêncio congrega e facilita,
Silêncio essa mera ausência de som
Essa mera ausência de ti…

Alberto Cuddel®
Exercício poético III

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Exercício poético II


 Exercício poético II

“Na marginalidade da noite,
Despedi-me do luar,
Vesti-me de estrelas,
E no embalo do sonho,
Parti rumo a novo amanhecer!... “
 
Sírio de Andrade

Nem envolvido neste falso silêncio
Caído e esmagado pela escuridão
Os sonhos que de mim em ti presencio
São no amor consciência e servidão!

Mesmo que desagúe nos teu olhos
Das tristes estrelas luzeiro e farol
Lençóis, mãos inquietas entre folhos
Adornado soldado de ti, encimado virol!

Subo nas horas descendo no horizonte
Por entre pedras e almofadas choradas
Tristemente marcadas as noites na fronte
Acordar solitário, manhãs bem marcadas!

“Na marginalidade da noite, “
Encontro-me inquieto, imperfeito
Movimento em si quieto
Luar oculto por um olhar afoito!

"Despedi-me do luar, "
Na transparência da alma
Sobe a águas da vida,
Em ti encontrei a calma!

“Vesti-me de estrelas, “
Por mim, por ti, nunca por elas,
Pela luz que me dás, amor,
Visto-me na manhã até ao sol por!

“E no embalo do sonho,”
Nasço por ti todas as noites
Faço-me crente e servo
Do corpo celeste com que me embalas!

No dever da vida que me desperta
Despedida chorada quase certa
“Parti rumo a novo amanhecer!... “

Alberto Cuddel®
In: Exercício Poético - II

Exercício poético I


 Exercício poético I

 

“O dia nasceu, cansado sentou-se

Esperou pensativamente a noite

Na solidão das estrelas, adormeceu…”

 

Percorro com a nudez dos dedos

A distância que medeia outras horas

Desvendo roupas e outros segredos

Nas lágrimas que caem quando choras!

 

Fundimos a noite na linguagem silenciosa,

Na cama solitária vestida de rubras sedas,

Lua tímida, anafada ocultamente receosa,

Escondidos por entre arbustos e veredas!

 

Cai a noite, beijo salgado, cansado, dormente

Saudade ausente, lábios teus escritos na noite

Gemem as pedras, as ervas, cala-se outra gente

Cai o vento na alma, a brisa nos cabelos, acoite!

 

Corre a água em direcção ao mar,

Dormente ser cativo, doce (a)mar,

Olhar infinito, nuvens, tempestades,

Azul, céu estrelado, tuas vontades!

 

Com os dedos assim vestidos de luxúria

Percorro o tempo e a negra escuridão

O vazio da alma sofrimento da penúria

Devoto crente, triste e humana desilusão!

 

O dia nasceu, cansado sentou-se

Os pássaros irrequietos voaram

Mas o homem, tristemente negou-se,

 

Esperou pensativamente a noite

Vozes dormentes na mente soaram

Veloz pensamento assim afoite

 

Na solidão das estrelas, adormeceu

Sonhos de menino, humanas vontades

Palavras duras, puras, certas verdades

De alma despida o ser Amor, enalteceu!

 

Alberto Cuddel®

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Poesia na gaveta


 Poesia na gaveta
 
Poemas guardados
São nados mortos poéticos
São versos abandonados
Sentimentos secos, esqueléticos
 
Poesia é vida, livre, sentida
Poesia é emoção, quando lida
Escondida, é apenas desabafo
Sem voz, um sussurro, um bafo!
 
Poesia de gaveta, é um eu escondido
Um sentir ausente assim reprimido,
Palavras ocultas da luz, não são escritas
Desenhadas, pensadas, circunscritas!
 
Permite-me ser poeta, sentindo
Lendo, sentindo o teu viver
Permite-me conhecer-te coexistindo
Na tua sensitiva forma de ver!
 
Deixa que as palavras voem
Que o pó de dissipe,
Que os versos vivam…
 
Alberto Cuddel®
In: tudo o que ainda não escrevi 66



domingo, 21 de agosto de 2016

Rasgo folhas do meu caderno,




 

Rasgo folhas do meu caderno,
Procuro no seu interior a essência,
O poder de um sentimento terno,
Mas a escrita fica-se pela aparência
Da corrida tinta que te cobre!
 
Rasgo folhas do meu caderno,
Procuro apagar de mim o passado,
Memória de tudo o que é externo,
Assim definitivamente algemado,
Nas palavras que declamo ao vento!
 
Rasgo folhas do meu caderno,
Vitórias e derrotas do teu sentir,
Vida de um despiciente inferno,
Mim ainda continuam a coexistir,
Versos que finjo escrever na areia!
 
Rasgo folhas do meu caderno,
Esqueço de mim a existência,
Sentir em mim amor materno,
Finjo sentir de ti a aparência,
Palavras redondas que escrevo!
 
Rasgo folhas do meu caderno,
Queimo de ti na luz do olhar,
Romances que em mim alterno,
Encarno em mim o saber amar,
Esqueço abandonado caderno vazio!
 
Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi 65


sábado, 20 de agosto de 2016

Li-te


Li-te
 
Se tu lesses metade do que escrevo
Encontrarias em mim o que descrevo
O que sinto, e o que finjo da tua dor
Escrevo-te como sinto sendo eu actor
Das tuas próprias palavras, perdidas
Eternizadas nas páginas das vidas
Fingidas e ocultas na alma reprimida!
 
Encontras em mim, o teu eu
Não metade de ti, mas alguém que leu
O sentir oculto do teu gestos
Dureza das lagrimas que te caíram do rosto!
 
Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi 64

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Vives

Vives

Nos caminhos da memória
Esqueço e lembro,
Pedras que guardo nos bolsos
Balões presos nos punhos,
E uma bola que saltita entre os pés,
Lembro e esqueço,
Quantas vezes querendo esquecer
O nada que ainda lembro
Ou apenas lembrar
O tudo que ainda que esqueço!
No caminho da memória
Faço-te viver
Para que a história da vida
Não me faça esquecer!

Alberto Cuddel®

In: Tudo o que ainda não escrevi - 63

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Hoje em tudo diferente…

Hoje em tudo diferente…

Momento inconstante e tudo muda,
O sol que dá lugar à chuva, os olhares,
Os gestos reprimidos, as lágrimas, o sorriso
Do nada, nada muda, tudo diferente, sem gente!
Existirá no mundo maior mentira
Do que o silêncio, as árvores a florirem,
Existirá maior traição
Que o sentir da palavras fora de tempo?
Haverá algo mais verdadeiro
Que escrever silêncios,
Com palavras nos versos?
Onde existir vontade, tudo muda
Tudo é verdade, acaba a mentira!
Ficam apenas o cantos dos pássaros,
Memória da água em ribeiro seco
O desejo do beijo, e um céu encoberto
Como lençóis cobrindo corpos estrelados,
E o silencio,
O silencio abafado da respiração ofegante
Nos dedos entrelaçados olhando o tecto!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi - 62

Alberto Cuddel na Radio


Noites de Poesia
No próximo dia 22/08 segunda-feira, entre as 20:00 e as 23:00 Hora de Lisboa, Alberto Cuddel estará na Radio Marinhais no Programa Noites de Poesia de Alfredo Batista, aproveite para conhecer melhor o poeta e conhecer também a sua poesia na sua própria voz. Programa emitido também via Internet, no seguinte link: 


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Incertas certezas


Incertas certezas
 
Certamente que a incerteza existe
Coisa certas desistem,
As incertas persistem,
O sonho vive, antes que morra!
 
As pedras da calçada gastas do uso
Pelo caminho percorrido
Levam, trazem, param e convivem
Antes que o caminho se feche
Sem levar a lugar nenhum!
 
Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi
 
Foto By: M. Irene Cuddel