sábado, 3 de setembro de 2016

Poesia Oculta




Poesia oculta


Pudesse eu fechar-me em mim próprio
Construindo paredes perfeitas,
Pedras finamente cortadas empilhadas
Que afastasse de mim a luz e o mundo!

Pudesse eu ser apenas verso
Apenas rima e poesia, enclausurado
Nas frias e secas palavras despidas
Engavetado no mofo de fechadas gavetas!

Pudesse eu ser segredo oculto da branca beleza
Em folhas negras escritas a branco,
Em folhas brancas escritas a negro,
Tinta seca, palavras arrastadas nunca lidas!

Pudesse eu…
Mas arrasto-me pela devassidão dos olhares
Pela interpretação de humanos ávidos e sedentos
Vasculham as letras, os espaços, os silêncios
Procuram-me a essência, o âmago, procuram-me
Esperam encontrar-me a alma, a calma,
A devassidão prazerosa da vida, a formula do amor,
O mapa da felicidade, ou apenas ler-me,
Compreender-me no ato altruísta que de mim dou
Ao escrever-me nos seus pensamentos!
Pudesse eu ficar fechado numa gaveta,
Poder até podia, mas seria eu apenas e só
A falta da doce luz de ser poesia!

Alberto Cuddel®

In: Palavras que circulam - III

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