sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Um último poema, a verdade




Um último poema, a verdade

Presunçosamente escrevi-me
Reinventado versos, criando-me
Fazendo-me ser o que nunca fui
Fazendo-me poeta das tuas ideias
Da tua alma, da tua forma obtusa de sentir
Presunçosamente enalteci-me
Aos pícaros pecaminosos do ego
Sou um nada poético, apenas actor
Imitador profundo das palavras
Dos sorrisos e das lágrimas
Que mostras e vertes…

Já mais foi honesto na escrita
No que intentei escrever a tinta
Num escuro e anafado legado
De palavras difusas sem estilo definido,
Escrevendo noites pútridas da solidão
Ventos sombrios que cortam a alma
Puritanos e eróticos pensamentos
Saudoso amor deste mundo infernal!

Menti,
Menti-me descaradamente,
Menti-te despudoradamente,
Não sou poeta, nem qualquer coisa que o valha
Não sinto o que escrevo, não escrevo o que sinto,
Invento e reinvento sentimentos roubados
Nas conversas de café, no comboio, no cabeleireiro,
No choro de uma moça abandonada,
No grito do pai que perdeu o filho,
Na mãe que se contorce de dor,
Na lua, falsa, ladra da luz…
No sol, quente que nada produz…
Nas ondas do mar, que vem, que vão,
E tornam a voltar!

É oportuno que, em mim os sorrisos,
Me lembrem os que choram, que, assim,
Meu riso não ofenda a mágoa dos que sofrem:
Mas que eu entenda em mim o sentido do sofrimento,
Sabendo eu que não me iguala, mas que nos torna iguais...
Não me considero melhor do que aqueles que ficaram para trás
Porque o dia virá em que não serei diferente, apenas memória
Nem jornada, nem história, apenas versos difusos de um sentir
Ausente e distante dos meus muitos eus que ultrapassei na caminhada,
Os outros farão de mim
O que eu por ti fiz
E nada de facto, será feito por mim,
Se eu agora não o fizer… farei das palavras caminho
Sem que nunca chegue em mim a concluí-lo...

Na falsidade que me assiste, verdadeiramente apenas me inscrevo
Nas mentiras esquerdas e direitas que poetizo!

Alberto Cuddel®
In: Palavras que circulam - VIII

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