quarta-feira, 31 de maio de 2017

A vida


A vida

As mãos e os joelhos, um avanço
Passo, seguido de passos sós
Uma mão só que se une a outra mão só
Passos emparelhados rumo a um mesmo destino…

Alberto Cuddel

Às vezes, leio-me e comento-te...





Às vezes, leio-me e comento-te...

Na imensidão do pensamento
Penso, às vezes penso
Penso que me basto
Nas palavras que produzo
Às vezes, penso,
Penso que sou tão ignorante
E depois? Depois leio-te
Leio-te a ti poeta
Que me contas outra vida
Outras rimas, outras terras
Amores novos e virgens
Leio-te, na minha originalidade
E sinto-me pequeno,
Infinitamente pequeno
Plagiador até,
As palavras que escrevo
Não são novas em mim
Não brotaram do meu ser
Mas do que li,
Do que contigo aprendi
Ao ler-te também a ti…
Repouso em ti poeta
A consciência,
O cinzento pensar
Que bebo nas tuas
Eloquentes palavras
Soltas, livres, vivas
Nas frases, nas rimas
Na sofreguidão da fome
De te ler, de te interpretar,
E comentar, na ânsia
Pagã, de sentar-me à tua direita,
Lendo-te e encontrando-me
Na significância da tuas
Puras e elaboradas palavras!

Lisboa, 05 de Março de 2016
Alberto Cuddel


terça-feira, 30 de maio de 2017

Diário branco





Diário branco

Definem-me pelo tudo que tenho, sendo o eu o nada que possuo
Nem os meus pensamentos gritados ao vento são posse minha,
Perdem-se na chuva de gritos perdidos nos ouvidos do mundo,
Espero apenas que a lua se deite, para que amanheça em mim,
E por fim, descanso, do cansaço que o pensamento me causa,
Noite branca, dormente na inquietude pensante total e vazia,
Fustigam-me ideias suicidas de novos versos e reversos poéticos,
Poema inacabado, borboletas que esvoaçam perdidas no mar,
Doce imagem do teu corpo nu, vestido com a alma apavorada
Triste solidão que te conforta, no vazio silêncio que a noite dita!
- ai de ti poeta das rimas feitas e fazes vazias,
Onde te deitas? Tabuas negras e frias!

Tenho mais certezas que duvidas, pois duvido de todas a certezas,
As dúvidas que me assaltam, espreme-me, esvaziam-me
Deixam-me nu, nunca me acostumo a despir-me das palavras,
Nem à ideia de que as gaivotas fogem do mar,
Ou que sejam as andorinhas a comandar a Primavera,
A casa essa está fechada, nada aberto, nem porta nem janela,
-mesmo assim duvido, que mesmo fechada vivas nela.

Nunca esperei um fim, um principio,
Tudo segue um rumo, um destino,
Um sussurro, um abafado grito,
Desdigo-me, minto, finjo
Nem de ti, nem de mim, nada dela,
Que me contas, do tempo do nada?
Porque te finges ser um tudo,
Se no tudo que do alfabeto se pensa,
És meramente actor, um mero poeta!

Alberto Cuddel




domingo, 28 de maio de 2017

Imagine…



Imagine…

Que a alma não tinha fronteiras
Que a vontade era livre de amar
Que a inveja não reinava nas eiras
E que o mundo sabia caminhar!

Imagine…

Que cada um de nós, do tu e do eu
Não vivesse na busca da felicidade
Que partilhava a vida a terra e o céu
Quão lindo seria viver de verdade!

Imagine…

Que ao acordar
Soubesses que está nas tuas mãos
Deixar de sonhar
E viver como irmãos!

Alberto Cuddel


sábado, 27 de maio de 2017

Fenix



Fenix

De todo o vão intento e ledo engano
Morro a cada palavra tua e momento
Queda ilusória de todo o meu tempo
Por um sentir enganador e mundano

Fico o momento e logo me esqueço
Sou a ambivalência das horas vadias
Em mim, o riso efémero não tem preço
Dias de cinzas tórridas. Noitadas frias.

Que morra no ledo sentir da entrega
Recobro anunciado no negro corvo
Renasça de mim amor assim se nega.


Alberto Cuddel




sexta-feira, 26 de maio de 2017

Acreditar



Nem Deus nem os homens…
Quem de nós crê?
Que fé é essa que Deus em nós deposita?

Quem me conhece, se eu de mim nada sei?
Se não me conheço por dentro,
Tão pouco por detrás de mim mesmo?

Creio na minha existência
Pelo espaço que ocupo
E pela sombra em dias de sol,
Quando chove, não crio que exista,
Tão pouco quando de mim choram os olhos…

Às vezes encontro-me
Apenas por instantes
No reflexo do teu doce olhar
Tu que não sendo eu
Reflectes os meus gestos
E o que por ti em mim sinto,
Sim creio nisso, nisso e no amor
Creio piamente no amor que tenho
E no amor que dou…


Alberto Cuddel


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Amor Imortal


Amor Imortal

Não me custaria arrastar-me pela vida
Na palidez do rosto, no gélido sangue
Pelo amargo dos teus lábios, e os beijos
Com a lua iluminando-te as formas rosas
Ao chamamento, -vou, sou, pertenço
Amantes eternos, mesmo que o coração
Se imobilize nas tuas mãos, com a morte
Escondendo a nudez da tua alma, e o sangue
Deslizando na lâmina fria do ciúme,
-pertenço-te apenas, na lucidez entorpecida
Do desejo animalescamente humano,
Órfã dos pudores mortais, de uma alma
Trajando o luto, da perda constante
De um amor Imortal!


Alberto Cuddel


Revolta-te, não te sentes…


Revolta-te, não te sentes…

Do meu tronco nascem ramos que vos abraçam
Nevoeiros de algodão que pisais nos sonhos
Águas mansas desaguam na foz dos ribeiros
Não cuidem madrugadas salvas que a morte
Reina em beirais esquecidos do tempo ausente
Distantes consciências que vos suportam a almas!
Hoje, o hoje mera consequência de um ontem
Sonhos perdidos no tempo, sonhados por dois
Talvez três, no calor de uma inveja assolapada
As uniões forjam-se no calor da união confluente
Desejos mundanos e carnais que unem os corpos
Almas carentes de uma forte mão que as ampare!
O silêncio? Não como o dos homens que se calam
Mas o silêncio social que tudo levianamente aceita
Quietos, as mãos e os braços baixos, sem revolta
Ignorância infantil que assusta os outros sábios
Esses que ontem formaram para que leccionassem
O amanhã que os vossos avós no passado sonharam
Dando voltas no leito de pinho, esses revoltam-se!
Jamais te sentes, ficar sentado é aceitar a totalidade
Da ignorância egoísta dos que vos regem os dias
Pensa, reflecte nas doutras palavras que nos ecoam
Naquelas que vos aplacam os dias e voz vos dão
Para que o pão e a alegria de ser dia, não vos faltem
Do meu tronco nascem ramos que vos abraçam
Na guerra ou cuidas do ideal, ou morres tentando!

Para que o futuro tenha a esperança de um nascimento!



Frase:
Poesia é: ver o mundo com os olhos da alma e descreve-lo apenas na ponta dos dedos!



Alberto Cuddel

terça-feira, 23 de maio de 2017

No olhar…



No olhar…

Presa na retina, levou consigo a maresia,
Nos lábios a brisa e o sabor salgado a mar,
Despe-se em si o luar, nas cores da poesia,
Nas velas, os sonhos, nobre o acto de amar!

Espelha-se no azul mar preso no teu olhar,
Nas ondulações errantes do amor iluminado,
Nudez do Teu pensamento, sentir sagrado,
Rubescidas em vagas de mar atrevido, Amar!

Vasto vaso, casco sublime anseio querido,
Gestos insinuantes abraçam, porto atrevido,
Teu corpo que frisas nas ondas do receio!

Olhar vago gravado na saudade, na fé e ardor,
A Deus peço, confesso com todo meu amor,
No teu olhar, o meu mar, ondas em devaneio!

Alberto Cuddel

sábado, 20 de maio de 2017

Memória da alma!



Memória da alma!

Gravo na alma a imagem deste lugar,
Um lugar surpreendido pelo olhar,
Longínquo, perfeito, inacessível
Sonhado, desejado, inverosímil!

Esfera perfeita da ilusão
Não um qualquer lugar
Escanzelado e despido no olhar
Gravo as formas curvas das palavras
Gentilmente dedilhadas ao fundo
Sobre um futuro que anuncias
A vida, ai a vida,
Essa não são apenas borboletas!



Alberto Cuddel

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Um lugar surpreendido pelo olhar



Um lugar surpreendido pelo olhar

Já mais se encantariam teus olhos
Senão num sonho onde depositas a saudade,
Cai distante, por detrás do monte o olhar teu
Depois da curva de onde o amor te levou!

Jamais vi neles tristeza,
Apenas a alegria do regresso
Que trazes no abraço do teu regaço,
…Saudades da tua mãe!

Fixas o olhar no presente, outro lugar
O futuro chegará sozinho, lágrima caída
Inesperadamente.

O sol ainda se põe, nesse mesmo lugar
Escondido por detrás do olhar, lá longe
Do outro lado, do outro lado do monte…
Depois da curva de onde o amor te levou!



Alberto Cuddel


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Não sou dos poetas pequenos






Não sou dos poetas pequenos
Mas dos que se inventam, e escrevem o mundo
Dos que partem dentro de si mesmos
Dos que fogem ao sorriso, e dos que sofrem
Sem qualquer contradição ou juízo
Ai dos poetas pequenos, dos que se escrevem
Esses, coitados não cabem num verso
Tão pouco na floração de uma margarida
Ou numa mera chuva de sol...
Num desses poetas não cabe na mão
Todos os seios do mundo
Nem as pernas que se movem
Ou adamastores imponentes os bloqueiam
Ou ilhas e amores que nunca viveram
A eles um poema basta...

Alberto Cuddel
21/04/2017
10:38


sábado, 6 de maio de 2017

Ensaio sem voz


Ensaio sem voz


 

Quando a voz fatigada

Descansa do seu ofício

- Canta o olhar

 

O sono que repousa nos braços

Caídos e desmotivados

 - Tocam as liras

 

Das velas apagadas

Luares secos, ruas desertas

 - Dançam os pés

 

Brincam perdidas as letras

Rodopiando nos pratos

- Comendo uma canja

 

E no silêncio inventam rimas nos ecos…

 

Alberto Cuddel

03/05/2017

20:50


terça-feira, 2 de maio de 2017

Poema, simplesmente Poesia

Poema, simplesmente Poesia

Insulta-me largamente a falta de vontade
Consciência poética que nada sei de verdade
Tão pouco a inspiração marinha
Ou um outro carnaval que finda!

Febril displicência, esta a que me condenais
Escrita celebrativa em registada pelos anais
Registo ecléctico do texto em tudo poético
Escrevendo um sentir em tudo patético!

Ó poesia doutrora, declamada em alto estrado
Por doutros e ávidos poetas desta nobre vida
Na terra experimentados pela idade, mestrado
Assim cantavam alto toda a sua vil poesia!

No sul, este, oeste e norte
Amor, saudade e morte
Jardins, flores, mar e sol-pôr
Ódio, intervenção ou amor!

Assim canta baixinho o poeta
O que sente o que lê e o que inventa,
O sem vergonha e sem pelo na venta
Verdades que escandalizam ou peta!

Ó poesia assim celebrada,
Em ti nada mais a ser inventada,
Apenas ouvida, declamada, escutada!

Alberto Cuddel