terça-feira, 27 de junho de 2017

Portas, ou reentrâncias...

Portas, ou reentrâncias...

Portas fechadas, que se deveriam abrir
Almas amarrotadas, enclausuradas pelo sentir
Ódios cultivados e ouvidos fechados,
Que se abram, que se escancarem
Que se renove o ar, a brisa, deixa entrar…

Que se percam as chaves do egoísmo vil,
Que se escute abertamente abdicando do funil
Da dureza do preconceito formatado
Por um coração duro e bem fechado…
Que se abram portas, janelas, que se derrubem muros
Paredes, pedras…
Que se abram ao mundo, as portas da alma,

Que se abram, que se escancarem
Que se renove o ar, a brisa, deixa entrar…

Alberto Cuddel
28/04/2017
22:33


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Tenho escrito, apenas e só!


Tenho escrito, apenas e só!

“Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?”

Álvaro De Campos
15-10-1930

Por onde me encontraria na mentira da criação
Fossem os poetas executores de matéria
De onde lhes nasceria nova vida
No caos desordenado do alfabeto
Nas oitavas menores dos sons da noite…
Cantaria mentira o poeta? Por entre liras estridentes…
Serrados sejam os dentes, herege lançado à fogueira
Que poesia é obra do demo, nela vive o engano.
De mim, nada, nem inventado fora o verso,
Rima de um sentir enganoso e perverso,
Copistas de mentira e palavra já escritas
De um amor estupidamente camoniano
E a tua anarquia ordenada de ideias,
Campos, Campos, de ti Reis,
Libertos da libertinagem das palavras
Soltas e brancas… sem rimas eficazes
Onde o tudo escrito é apenas um nada
Que se apaga, como a lâmpada do quarto…

Alberto Cuddel
28/04/2017
09:08


domingo, 25 de junho de 2017

Uma chama


Uma chama

Pequena e ondulante chama
Pensamento seguro e apoiado
Na cera dos dias de ontem
A herança, os valores, os medos
As seguranças, a formação
No ar, o contexto, a sociedade
Os condicionalismos, as restrições
No pavio, o teu corpo, a tua vontade,
A chama? Uma vez acesa,
Apenas a morte a apaga,
E ondula livremente o pensamento…

Alberto Cuddel
28/04/2017
08:48


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Cai na rua


Cai na rua

desci à rua vendo a saudade passar
homens que tropeçam em algibeiras vazias
praças sem cor, sem luz, e os dias que passam
e livros que se queimam,
tempo que não se quer saber
e o saber nada é, com tudo no bolso
e mesmo assim, ninguém sabe quem foi…
são largas as palavras caladas
as que tropeçam nos dentes
as que reprimo, e as que choram lembrando
liberdade, essa de nada saber
como pensas se nada sabes?
caio na rua, moldando as mentes vazias
o poder, nas patas de cães disfarçados
de rebeldes amestrados que os conduzem pela mão…



Alberto Cuddel

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não sou dos poetas pequenos

Não sou dos poetas pequenos

Não sou dos poetas pequenos
Mas dos que se inventam, e escrevem o mundo
Dos que partem dentro de si mesmos
Dos que fogem ao sorriso, e dos que sofrem
Sem qualquer contradição ou juízo
Ai dos poetas pequenos, dos que se escrevem
Esses, coitados não cabem num verso
Tão pouco na floração de uma margarida
Ou numa mera chuva de sol...
Num desses poetas não cabe na mão
Todos os seios do mundo
Nem as pernas que se movem
Ou adamastores imponentes os bloqueiam
Ou ilhas e amores que nunca viveram
A eles um poema basta...

Alberto Cuddel
21/04/2017
10:38






terça-feira, 20 de junho de 2017

Partida

Partida

não fujo
apenas vou
parto
para que fique
a saudade
e necessidade
da ausência
para que sintas
a dor, e a falta
que sinto de mim mesmo...
parto
para
me
poder
encontrar
na solidão
vazia
que paira
no ar
que respiro...



Alberto Cuddel

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A música

A música

A musica da Primavera,
Ou um bando de pardais
Andorinhas nos beirais
Ou as músicas de outra era?

Uma tortura que me nasce na alma
Os sons que me corpo acalma
Um copo meio vazio, ali olhar
Perdido no balcão do bar?

A música...
Quantas mais longas as mágoas!
E sempre a música...
Pobre coitado martelado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música
Um som abafado, das lágrimas que rolam
E os risos, embevecidos em álcool
E donzelas que se passeiam pela noite
Já sem pijama vestido…

Acima de tudo é música
Mesmo que acordes no banco de jardim
Ainda assim… será música!



Alberto Cuddel

domingo, 18 de junho de 2017

Guardiões dos versos


Guardiões dos versos

Ladeiam-me os guardiões do tempo
os protectores das rimas e métrica
da poesia sonora ao som da citara
dos fingires e contadores de historias
das palavras directas e irrisórias!

Condenam-me, enclausuram-me
Nas páginas esquecidas e brancas
Nas capas duras escuras fechadas
No mofo esquecido de um léxico
Desconhecido desta enorme maioria!

Poeta escrevente de dramas e amor
copista sem poder de concepção
modeladora em perfeita arte,
do sentir idealizado no pensamento
e tu “livre” preso a único momento!

Concebida fortemente a emoção,
a frase que a define espontânea
e o ritmo que a traduz surge pela frase fora.
não concebo, porém, que as emoções
estejam despidas do poeta, da arte
do choro e do sorriso, de toda a paixão
que finja, mas que o finja na verdade!

Ainda assim ladeiam-me o peso do ontem
e das palavras que o tempo não esquece
desses poetas maiores, que Pessoa enaltece
e toda a beleza e retórica quem os montem!

Nada me liberta,
aqui pertenço,
não por moda
mas assim penso!



Alberto Cuddel







Grito mudo

Grito mudo

(…)
E foi assim em silvos mudos que atirei a angústia
Declamei a fúria destilada pelas mãos atadas
Contra o esquecimento de deuses enfurecidos
Revolta contra o carvão e cinza manchada de sangue!

Não esqueci rimas ou métricas
Como podes medir a distância ou a dor do sofrimento?
Famílias que viajavam presas no inferno
Não foi uma mão criminosa ou falta de atenção
Não foi um mau funcionalismo ou uma desatenção
Tudo fruto de infelizes coincidências
O calor o vento e trovoadas intensas…

Nobre povo, de machado em punho
Mesmo com todos os meios é inglória
Lavram labaredas sela serra fora
Bombeiros coitados já sem memória
Arrepiam o fogo pra frente é caminho!

Os filhos que choram a mãe
O pai que não a vê chegar
Uma vida de trabalho
E agora já não ter lar!

Gritos mudos contra os deuses
Que permitem tais desgraças
Tantos feriados, tanta gente nas praças
Tanto desperdício, festa, artificio,
Mas não cuidamos do património
Que afinal é natural, mas todos o descuidam!
Naturalmente com a seca trovoada
Arde, arde, a serra e a estrada!

São palavra vãs,
Gritas tu que agora lês
Mas criticas porque escrevo
Não criticas quem não fez,
Neste grito mudo, depósito com elevo
O sonho que acalenta o espírito
Que se lembrem do que inscrevo
Quando amanhã de novo se perder a memória
Existirá alguém que irá lembrar desta história
Recordando sempre a dor e o sofrimento
Mas quando esquecida for será só divertimento!
Nem nos homens nem na sorte
Não creio que seja chegada a morte
Que se unam os homens e os inimigos
É nestas horas que se abraçam os amigos
E na dor de tudo ter perdido
Em bom abona da verdade
Nasce entre um nobre povo
A doce e desejada solidariedade!

Que o luto seja não um tempo só de dor
Mas vontade de fazer e muito conseguir repor!

Alberto Cuddel
18/06/2017
6:10
In: Poesia despida
http://www.facebook.com/AlbertoCuddel




sábado, 17 de junho de 2017

Vida por viver…

Vida por viver…

Tão longe e distante o fim dos dias
E a minha pressa de vida…

Expressão intelectual da emoção,
Indistinta da vida, dessa que corre lá fora
Na juventude correria das horas
E a vontade de ser e fazer, tudo e coisa nenhuma
Na ideias abertas que me aprisionam,
As ciências distorcidas e filosofias vãs
E eu? Quem sou, sem te perseguir
Formo-me na consciência cabal
De irei ser, o tudo que de mim farei
Na consciência de que tudo me condiciona…

Vida,
É com esse sonho que fazemos arte.
Outras vezes com a emoção
A Paixão é a tal forma forte que,
Embora reduzida a acção, a acção,
A que seduz, já não a satisfaz!

E a vida, essa coisa esquisita
Que passa diante de mim
Dia a pós dia…
Terei pressa,
Calma, tempo…
Mas ainda a irei sonhar,
Viver, sentir
Apaixonar,
Amar…
Sem pressa…
Bem devagar…

Alberto Cuddel




sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ao teu serviço

Ao teu serviço

Prostro-me por terra, não como escravo
Mas como disponibilidade, ao teu serviço
O maior entre nós, não é o que é servido
Mas o que se dá pelos outros, chamam-lhe amor…

Neste quarenta dias caminhamos contigo,
Hoje caio por terra quando te ajoelhas sozinho,
Bem antes da instituição da refeição sagrada,
Deste-nos uma grande lição,
Não devemos contigo comungar,
Com a alma vazia de nada…

O pó que de meus pés retiras,
É o pó da longa e dura estrada,
Lavando o pecado que conhecias,
Com essa água abençoada!

Ao inverter os papeis Cristo
Coloca-se ao serviço dos homens
E nós? Nossas mãos? Que doação?
Sofre na carne a dolorosa paixão,
Para nos dar um exemplo…
“Eu vos dei o exemplo,
para que façais o que eu fiz’”

“Se não te lavar,
não terás parte comigo”.
Não poderás comungar,
Nem ascenderás ao paraíso!

Prostro-me diante de vós
Com pequeno que sou
Também eu sou servo
Também eu sou mãos
Também eu sou instrumento
Também eu sou pecador!



Alberto Cuddel



quinta-feira, 15 de junho de 2017

O cheiro das coisas

O cheiro das coisas

Soube que amava
Quando senti o cheiro das coisas
Quando as largas narinas se encheram de margaridas
De rosas, de papoilas, de jasmins, de lírios
E de merda, das ovelhas que percorreram o carreiro…
Mesmo assim corria para ti…
Agora sei a que cheiram as coisas
Interessam-me os cheiros, e o teu
Às vezes cheiro-te mesmo antes de te ver…
Outras, não me incomodam os cheiros
Da tua indisposição…
Mas hoje, hoje interessam-me os cheiros,
Esses, e os outros…
Mesmo que a coisa seja a mesma
Apenas com um cheiro diferente…



Alberto Cuddel

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sede…



Sede…

Tenho sede de liberdade
E fome de pensamento
Tenho ganas de leitura
E desejos de conhecimento!

Longínquo vai o tempo
Da longa palmatória
E de todo o contratempo
De saber a oratória!

Juntei letras, vogais, consoantes
Pensamentos soltos
Formatados por ideias constantes!

A liberdade do meu pensar
Está no que de mim abdico
Pensamentos impingidos
Já os deixei longe no penico!

A sede que sinto,
Nasce da fome que tenho
Numa liberdade de pensamento
Que hoje não abdico!

Alberto Cuddel

12/04/2017
14:51







terça-feira, 13 de junho de 2017

Longe...

Longe…

A vida corre distante, longe
Fora dos muros que me prendem
Fora da maternidade que me formata…
As paredes oprimem
A tinta dos livros, as paginas
A vontade de ir, partir
Saber e conhecer…

Ao longe a vida
Uma triste miragem
Um rebanho,
Formigas num carreiro…

Mas ler é uma maçada
Não dá que comer
E aprender não serve de nada
Nem nos ensina a viver

E eu na minha triste e longínqua ignorância
Acreditei…

Alberto Cuddel
12/04/2017
Às 10:52


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Liberdade de pensamento por entre paredes estreitas

Liberdade de pensamento por entre paredes estreitas

Liberdade do pensamento naturalmente servo da mulher
De um homem desastrado do papel formatado
Dos hediondos canais sociais que te formatam
Não és livre de pensar sem desejos nem convicções
Ser dono de si mesmo sem influência
Tudo em ti te condiciona, direcciona…

O pensamento como uma entrada no cárcere,
A triste a monotonia de tudo o que aprendeste
Sem que tenhas sede, fome, vontade de saber
Tudo te aprisiona dentro dessa caixa de cálcio.

A liberdade é um caminho de normas impostas
E sobrepostas a ti mesmo, igual a tantos outros,
Não buscas livros malditos escondidos ao lado
De tantos outros formatados em folhas brancas
Onde voa livre o pensamento preso entre capas!

A liberdade de pensamento é o caminho estreito
Por entre paredes altas e portas fechadas
Procuras as chaves nas páginas arrancadas
Nas matérias não dadas…
Mas bibliotecas com pó, nos livros escondidos
Na história que não é contada,
Na radio que não é escutada,
E ai serás livre, para pensar e decidir…

Alberto Cuddel
12/04/2017 às 10:40


domingo, 11 de junho de 2017

Preto e branco da vida



Preto e branco da vida

Deixei que a recta me perseguisse vagamente,
Que as palavras flutuassem nas lágrimas estendidas,
Que o serrilhado das frases me ferisse a alma…

Sob o espelho dos dias, deitas-te ingloriamente
Caído em manto de glória, aplaudem-te as vogais
As consoantes, essas olham-te de cima, és poeta
Pequeno… pequeno…

Nos brilhos tirados a ferros, em páginas brancas
Antologias da vida em peso de ouro
E delicias-te na escuta, dos sons rebatidos nas pedras
De uma sala cheia de esperanças, e repleta de nadas…

Alberto Cuddel
10 de Abril de 2017
22:51


sábado, 10 de junho de 2017

Ausência, partida….

Ausência, partida….

Chamaste cada um pelo nome,
Fizeste-nos grupo de Cristo,
Deste-nos a crença, a vontade,
Deste-nos a liberdade, a verdade,
Pela musica fizeste-nos crescer,
Aprender também a viver,
E um dia partiste,
O silêncio gritante que ficou,
Depois de tua partida,
Impotência, foi o que sentimos,
Os projectos por realizar,
Os sonhos,
Os conselhos que ficaram por dar,
Sentimo-nos sós…
Vazios de ti…
Agora preenches o nosso imaginário,
Falamos e questionamos-te em silêncio,
Sabemos que estás presente,
Talvez muito mais…
Do que alguma vez estiveste…

Neste vazio que deixaste,
Que o nosso amor preenche,
E nos impulsiona - “segui em frente”,
Deixaste-te a ti, viva entre a gente,
Na face e no sentir de cada um de nós,
Podemos ouvir tua voz, saber o que pensas,
Pois moldaste-nos como o barro,
Ficou Amor,
Ficou verdade,
Ficou saudade!

Alberto Cuddel

Poema dedicado a alguém muito especial!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Poesia

Poesia

Palavras soltas onde me deito e me levanto
Onde chora minh’alma elevado pranto
No tudo que no meio seio ainda retenho
Palavras soltas que do poeta hoje leio!

O triste fado sentido
Verso da alma parido
Grito de saudade, clamor
Dor da ausência e amor!

Canto da fome caída na rua
Homens sofridos e tristes
Alma despida assim nua
Punhos erguidos em riste!

Ó poesia calada e desenhada na noite
Versos e estrofes onde me escravizei
Que me atinge o peito forte acoite
Palavras que nascem, dom que aceitei!

Os campos e jardins nos teus olhos,
Floridas névoas caídas nas montanhas,
O mar que engole nem sei o quê;
Amanhecer no abraço das tuas manhas,
Sonho perdido que ontem não se vê!

Ó Deuses, instigadores das guerras
Cantam nobres feitos das tuas serras
Os arautos que se levantam das terras
E os que se libertam das tuas garras!

Alma minha gentil, em ti me encontro
Em ti poesia, ainda hoje me perco…



Alberto Cuddel



quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Adeus…

O Adeus…

Perdi o comboio que passava,
No tempo que passa entre uma morte e a vida,
Nada hoje me contenta, nem a partida que desejava,
Tudo me soa a partida, nunca a uma chegada!

Carris, longamente estendidos, enferrujados
Pelos dias que passam, e outos desajeitados
Vi-te partir, com a esperança no olhar
Mas nunca mais, no comboio te vi chegar,
Esse morreu longe por decreto, decrépitos,
Esses que nos roubam a vontade de ir…

Toda a partida é uma morte,
Até nova chegada,
Mas o comboio que te serpenteava
A ti natureza em declínio,
Esse morreu, nunca mais voltou!

Eu, no meu olhar descrente
Fito a neblina, e escuto
As vezes filosoficamente
Ouço em minha mente,
O doce martelar ferroso
Do comboio em que te vi partir,
O progresso,
Incúria desumana,
Morreu longe,
Na esperança da vida
Dos antepassados
Que te esventraram
Para que o cavalo de ferro,
Um dia te levasse…
Sem um adeus…
Sem um até sempre…



Alberto Cuddel
04/03/2017 00:30


quarta-feira, 7 de junho de 2017

A tarde...

A tarde...

A tarde que cai no jardim
Uma tarde de chuva enfim
Como choram os lírios
E outros, delírios os que choras?

As rosas feridas nos seus espinhos
E as margaridas que sorrido
Espreitam o sol que se esconde
Homem, homem, isso foi ontem...

Hoje, morrem os sonhos em bancos
Húmidos e abandonados por mim
Túlipas que despontam, apartando
Terra solta, onde crescem as ervas...

Fungos e parasitas desgastam a carne
Podre que jaz após a morte...
E isso, apenas isso alimenta o mundo
E a fome de um amanhã...

Alberto Cuddel
03/03/2017 16:52


terça-feira, 6 de junho de 2017

Da janela do meu quarto,

Da janela do meu quarto,

Da janela do meu quarto vejo outras janelas,
Umas fechadas, outras abertas, e outras apenas janelas,
As pessoas que nelas vivem, escondem-se por detrás delas,
E são apenas habitantes espreitando por elas.
Da janela do meu quatro,
Vejo o mundo onde vives,
Vejo a imagem que projectas,
Os sonhos, os quereres,
Tudo quanto te fez sofrer!
Da janela do meu quarto, vejo a vida lá fora,
Vejo o desenrolar de uma vida, o já e o agora,
Da janela do meu quarto, viajo pela tua casa,
Vejo-te rir, chorar, partir, ficar, bater a asa,
Vejo um mundo de ilusões,
Quereres, vontades, paixões!
Da janela do meu quarto, vejo o mar,
Aquele outro mar, onde navegamos,
Partilhamos conversas, sentimentos,
Fingimos nos importar, amparar, apoiar!
Da janela do meu quarto, conheço-te,
Tu conheces-me, somos amigos,
Mas quando a porta saímos?
Tudo foi ilusão,
Tudo foi em vão,
Pois a janela do meu quarto,
É apenas um portal,
Para um mundo virtual!


Alberto Cuddel


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema sem dia

Poema sem dia

Quantas vezes morremos na corrente
No esquecimento pleno dos dias
Na certeza de não sermos quem somos…

Apenas acordamos
Porque vivos, vivos?
Isso não estamos…


Alberto Cuddel

domingo, 4 de junho de 2017

A Outra


A Outra

Dançam as águas no céu ardente
Deuses arrepiam-se e conjuraram;
Desejos de mulher que sobejaram,
Por homem infiel agora já somente.

Sedução eficaz que se faz presente
Nas mãos, nas pernas que passaram,
Movimentos do teu corpo ensinaram,
Desejos de homem assim já contente.

Ser simplesmente outra, dias e anos;
Na saudade que em mim castigasse
Palavras cheias de vãs esperanças.

Tu que me manténs nos puros enganos…
Até que teu anafado corpo se fartasse
E na descoberta nascessem vinganças!

Alberto Cuddel




sábado, 3 de junho de 2017

Escrevo cansado


Escrevo cansado

Escrevo cansado, por cansado estar,
Não de escrever, mas por apenas pensar!
Corro cansado, por cansado andar,
Não por correr, mas por não parar!
Trabalho cansado, por cansado ficar,
Não por trabalhar, mas por querer namorar!

Na vida não temos tudo o que queremos,
Mas agradecemos, todos o momentos,
Que concedidos são, à vida que vivemos!

Seja, por bem, a nós ou alguém,
Tudo o que pedimos, a Deus também,
Que tudo na vida que nos concedida,
O suficiente, o amor, amigos e gente,
Seja, por nós a dádiva agradecida!
Obrigado Senhor, por mais um dia de vida!

Alberto Cuddel



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Poema, simplesmente Poesia


Poema, simplesmente Poesia

Insulta-me largamente a falta de vontade
Consciência poética que nada sei de verdade
Tão pouco a inspiração marinha
Ou um outro carnaval que finda!

Febril displicência, esta a que me condenais
Escrita celebrativa em registada pelos anais
Registo ecléctico do texto em tudo poético
Escrevendo um sentir em tudo patético!

Ó poesia doutrora, declamada em alto estrado
Por doutros e ávidos poetas desta nobre vida
Na terra experimentados pela idade, mestrado
Assim cantavam alto toda a sua vil poesia!

No sul, este, oeste e norte
Amor, saudade e morte
Jardins, flores, mar e sol-pôr
Ódio, intervenção ou amor!

Assim canta baixinho o poeta
O que sente o que lê e o que inventa,
O sem vergonha e sem pelo na venta
Verdades que escandalizam ou peta!

Ó poesia assim celebrada,
Em ti nada mais a ser inventada,
Apenas ouvida, declamada, escutada!


Alberto Cuddel


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Poesia

Poesia

Palavras soltas onde me deito e me levanto
Onde chora minh’alma elevado pranto
No tudo que no meio seio ainda retenho
Palavras soltas que do poeta hoje leio!

O triste fado sentido
Verso da alma parido
Grito de saudade, clamor
Dor da ausência e amor!

Canto da fome caída na rua
Homens sofridos e tristes
Alma despida assim nua
Punhos erguidos em riste!

Ó poesia calada e desenhada na noite
Versos e estrofes onde me escravizei
Que me atinge o peito forte acoite
Palavras que nascem, dom que aceitei!

Os campos e jardins nos teus olhos,
Floridas névoas caídas nas montanhas,
O mar que engole nem sei o quê;
Amanhecer no abraço das tuas manhas,
Sonho perdido que ontem não se vê!

Ó Deuses, instigadores das guerras
Cantam nobres feitos das tuas serras
Os arautos que se alevantam das terras
E os que se libertam das tuas garras!

Alma minha gentil, em ti me encontro
Em ti poesia, ainda hoje me perco…


Alberto Cuddel