segunda-feira, 26 de junho de 2017

Tenho escrito, apenas e só!


Tenho escrito, apenas e só!

“Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?”

Álvaro De Campos
15-10-1930

Por onde me encontraria na mentira da criação
Fossem os poetas executores de matéria
De onde lhes nasceria nova vida
No caos desordenado do alfabeto
Nas oitavas menores dos sons da noite…
Cantaria mentira o poeta? Por entre liras estridentes…
Serrados sejam os dentes, herege lançado à fogueira
Que poesia é obra do demo, nela vive o engano.
De mim, nada, nem inventado fora o verso,
Rima de um sentir enganoso e perverso,
Copistas de mentira e palavra já escritas
De um amor estupidamente camoniano
E a tua anarquia ordenada de ideias,
Campos, Campos, de ti Reis,
Libertos da libertinagem das palavras
Soltas e brancas… sem rimas eficazes
Onde o tudo escrito é apenas um nada
Que se apaga, como a lâmpada do quarto…

Alberto Cuddel
28/04/2017
09:08


domingo, 25 de junho de 2017

Uma chama


Uma chama

Pequena e ondulante chama
Pensamento seguro e apoiado
Na cera dos dias de ontem
A herança, os valores, os medos
As seguranças, a formação
No ar, o contexto, a sociedade
Os condicionalismos, as restrições
No pavio, o teu corpo, a tua vontade,
A chama? Uma vez acesa,
Apenas a morte a apaga,
E ondula livremente o pensamento…

Alberto Cuddel
28/04/2017
08:48


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Cai na rua


Cai na rua

desci à rua vendo a saudade passar
homens que tropeçam em algibeiras vazias
praças sem cor, sem luz, e os dias que passam
e livros que se queimam,
tempo que não se quer saber
e o saber nada é, com tudo no bolso
e mesmo assim, ninguém sabe quem foi…
são largas as palavras caladas
as que tropeçam nos dentes
as que reprimo, e as que choram lembrando
liberdade, essa de nada saber
como pensas se nada sabes?
caio na rua, moldando as mentes vazias
o poder, nas patas de cães disfarçados
de rebeldes amestrados que os conduzem pela mão…



Alberto Cuddel

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não sou dos poetas pequenos

Não sou dos poetas pequenos

Não sou dos poetas pequenos
Mas dos que se inventam, e escrevem o mundo
Dos que partem dentro de si mesmos
Dos que fogem ao sorriso, e dos que sofrem
Sem qualquer contradição ou juízo
Ai dos poetas pequenos, dos que se escrevem
Esses, coitados não cabem num verso
Tão pouco na floração de uma margarida
Ou numa mera chuva de sol...
Num desses poetas não cabe na mão
Todos os seios do mundo
Nem as pernas que se movem
Ou adamastores imponentes os bloqueiam
Ou ilhas e amores que nunca viveram
A eles um poema basta...

Alberto Cuddel
21/04/2017
10:38






terça-feira, 20 de junho de 2017

Partida

Partida

não fujo
apenas vou
parto
para que fique
a saudade
e necessidade
da ausência
para que sintas
a dor, e a falta
que sinto de mim mesmo...
parto
para
me
poder
encontrar
na solidão
vazia
que paira
no ar
que respiro...



Alberto Cuddel

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A música

A música

A musica da Primavera,
Ou um bando de pardais
Andorinhas nos beirais
Ou as músicas de outra era?

Uma tortura que me nasce na alma
Os sons que me corpo acalma
Um copo meio vazio, ali olhar
Perdido no balcão do bar?

A música...
Quantas mais longas as mágoas!
E sempre a música...
Pobre coitado martelado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música
Um som abafado, das lágrimas que rolam
E os risos, embevecidos em álcool
E donzelas que se passeiam pela noite
Já sem pijama vestido…

Acima de tudo é música
Mesmo que acordes no banco de jardim
Ainda assim… será música!



Alberto Cuddel

domingo, 18 de junho de 2017

Guardiões dos versos


Guardiões dos versos

Ladeiam-me os guardiões do tempo
os protectores das rimas e métrica
da poesia sonora ao som da citara
dos fingires e contadores de historias
das palavras directas e irrisórias!

Condenam-me, enclausuram-me
Nas páginas esquecidas e brancas
Nas capas duras escuras fechadas
No mofo esquecido de um léxico
Desconhecido desta enorme maioria!

Poeta escrevente de dramas e amor
copista sem poder de concepção
modeladora em perfeita arte,
do sentir idealizado no pensamento
e tu “livre” preso a único momento!

Concebida fortemente a emoção,
a frase que a define espontânea
e o ritmo que a traduz surge pela frase fora.
não concebo, porém, que as emoções
estejam despidas do poeta, da arte
do choro e do sorriso, de toda a paixão
que finja, mas que o finja na verdade!

Ainda assim ladeiam-me o peso do ontem
e das palavras que o tempo não esquece
desses poetas maiores, que Pessoa enaltece
e toda a beleza e retórica quem os montem!

Nada me liberta,
aqui pertenço,
não por moda
mas assim penso!



Alberto Cuddel