quinta-feira, 30 de junho de 2016

Aborrecimento

Aborrecimento!

Passo adiante, apressado e constante,
Que aborrecimento, ver-te assim caído,
E sonho distraído, vago e ausente,
Diferente, indiferente a tanta gente!

Corra o mundo,- grite o mundo insanidade,
Que aborrecimento, que suja esta a cidade,
E esse vestido preto, onde me fazes sonhar,
Dispo-te o pensamento, na alça descaída,
Que me importa, não deixo perder-te no olhar,
Saio, não saio, fico, sonho e passo a saída!
Que aborrecimento, que faço eu da vida?

E chove, algures no mundo,
Aqui e agora pouco importa,
Sei-me indiferente, ao sol,
À chuva,  ou a uma qualquer porta!

Que aborrecimento,
Tudo por um preto vestido,
Que quis em teu corpo despido!


Alberto Cuddel


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Diário Branco

Diário branco

Definem-me pelo tudo que tenho, sendo o eu o nada que possuo
Nem os meus pensamentos gritados ao vento são posse minha,
Perdem-se na chuva de gritos perdidos nos ouvidos do mundo,
Espero apenas que a lua se deite, para que amanheça em mim,
E por fim, descanso, do cansaço que o pensamento me causa,
Noite branca, dormente na inquietude pensante total e vazia,
Fustigam-me ideias suicidas de novos versos e reversos poéticos,
Poema inacabado, borboletas que esvoaçam perdidas no mar,
Doce imagem do teu corpo nu, vestido com a alma apavorada
Triste solidão que te conforta, no vazio silêncio que a noite dita!
- ai de ti poeta das rimas feitas e fazes vazias,
Onde te deitas? Tabuas negras e frias!

Tenho mais certezas que duvidas, pois duvido de todas a certezas,
As dúvidas que me assaltam, espreme-me, esvaziam-me
Deixam-me nu, nunca me acostumo a despir-me das palavras,
Nem à ideia de que as gaivotas fogem do mar,
Ou que sejam as andorinhas a comandar a primavera,
A casa essa está fechada, nada aberto, nem porta nem janela,
-mesmo assim duvido, que mesmo fechada vivas nela.

Nunca esperei um fim, um principio,
Tudo segue um rumo, um destino,
Um sussurro, um abafado grito,
Desdigo-me, minto, finjo
Nem de ti, nem de mim, nada dela,
Que me contas, do tempo do nada?
Porque te finges ser um tudo,
Se no tudo que do alfabeto se pesca
És meramente ator, um mero poeta!


Alberto Cuddel®

terça-feira, 28 de junho de 2016

Somos

Somos

Eco da palavra pensada
Eco da palavra fingida
Eco da palavra sentida
Palavra, verso, poesia!

Rima, parelha, saudade 
Letras, sentir, verdade, 
Poema, som decorado
No coração gravado!

Somos poesia, 
Do dia a dia, 
O poema da nossa vida! 

Alberto Cuddel




segunda-feira, 27 de junho de 2016

sem titulo


sem titulo
 
Sem titulo
sem versos
sem rimas
sem ideias
sem mensagem
mas que raio de poema,
sem imagem
sem tema!
 
apenas assim,
como um céu nublado,
preludio do sol,
esse sim amado!
 
fora eu poeta,
fora eu autor
escreveria um mundo
um mundo de amor!
 
Alberto Cuddel®

domingo, 26 de junho de 2016

Teu


Teu …
 
Sou sem rumo certo,
Marido trofeu, poeta teu,
Amante insatisfeito, insaciável
Incansável de teu ser…
Sou, um pouco do tudo
Sonhado, que em ti foi
Por mim realizado!
 
Alberto Cuddel


sábado, 25 de junho de 2016

Para Ti


 Para Ti

 

O mundo, tudo de mim,

Mas de mim nem uma palavra,

Do meu silêncio nada brotava,

Nem flor, nem magia, de novo nada!

Uma certeza, um sinal, um calor,

Definitivamente amava!

Neste silêncio, amordaço-me,

Calo-me ao mundo, falo-te

apenas a doce força do abraço,

do gesto contido,

do sussurro ao ouvido!

 

Para ti

Um tudo delineado no sonho

Suavemente agitado nas horas

em que o sol se deita, em que o luar espreita,

nos tempos em que as alvas nuvens

correm nos céus, na suavidade da brisa

olhos que se perdem entre o cheiro da erva

e os desenhos curvilíneos o teu corpo,

sonhamos o futuro, como sonhamos

as formas da nuvens

que nos levam os pensamentos!

 

Alberto Cuddel®


sexta-feira, 24 de junho de 2016

De mim


De mim
 
Desfolhou-se a tarde no meu olhar
Inverneira, cinzenta, suicida paixão
O sol que me acalentava do coração
Havia morrido ali, bem longe de ti!
 
No teu amar não existo, apenas existes em mim
Não te compadeças das quimeras, apenas por fim
Dos beijos que morreram no desejo dos teus lábios
Olha as estrelas, videntes, cartomantes e sábios
De mim, tudo na transparência certa do ser pleno
Perguntas e certezas inscritas na perpétua areia
Lavradas e gravadas em ondas de um mar sereno
No brilho do orvalho matutino, noite de lua cheia!
 
Encontrei-me ao amar-te,
No espelho dos dias, vejo-te,
Não me encontro, ali, na solidão,
Para me ver, olho-te no doce olhar,
E nesse mar, onde habita a paixão,
Encontro-me, descobrindo o ato de amar!
 
Alberto Cuddel®


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Abstrações da leitura


Abstrações da leitura
 
Tão insolentes são os corpos amorfos que me desejam,
E a vontade de teus beijos,
Noite, essa por onde vagueiam uivando!
 
Tão dormentes os pensamentos que vos trouxeram
E a dor dos meus sentimentos
As palavras que desdenham, o dia com esperança!
 
Tão sem futuro os sonhos nus caídos no leito
O prazer sonhado, gemido no quarto
Apenas finjo, um prazer que não tenho para dar!
 
Tão viçosas as vestes da primavera, o cheiro, odor
Paixão pela qual me entrego as palavras
Roubadas a um qualquer poeta pela mente de quem lê!
 
Tão calmo o mar, nas correntes veraneias onde repousas
Construindo castelos na areia, sonhas família
No doce canto arrebatador da sereia!
 
Alberto Cuddel®

Soletro




 

Soletro soluços por entre lágrimas,

                - Olho o mar, e a ausência deixada

Jamais pesquei saudades,

ou homens com verdades

inscritas a ferro e fogo no peito,

sem medos, pudores, afeições,

tudo pela vontade e desse jeito,

(nunca ao primeiro olhar paixões)

Gravei, soletrei na areia o teu nome,

Lavado e levado pelas lágrimas

Que soluçando soletro!

 

Alberto Cuddel®

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Sei que me procuras


Sei que me procuras

 

Sei que me procuras

Nas horas extraviadas da vida

Nas autoestradas feridas

Amargura consciente em que me dou

No negro soalho polido do palco

Disperso nas rimas e palavras perdidas

Num coração dilacerado pelo fingir!

 

Sei que me procuras

Mas na verdade, não finjo, não minto,

Imagino parte do tudo o que sinto,

As hiperbolizadas lagrimas derramadas,

São meras gotas cristalinas, caídas e suadas,

Não me procures na desgraça, na vingança

Mas na solidão de uma praia deserta,

Apinhada de gente no verão!

 

Sei que me procuras,

Como procuras a felicidade,

Na saudade da perfeição,

Não estou lá, apenas aqui,

Escrevendo na doce paixão

Do sentir declamado pela imaginação!

 

Alberto Cuddel®


domingo, 19 de junho de 2016

Por três vezes…


 Por três vezes…

 

Sobem-me aos lábios duvidas estranhas

Sim, não, incertas negras montanhas,

Noites distantes, ausentes e suplicantes

Caem sob os telhados gotas brilhantes

Sentires alheios, sonhos e passos  perdidos,

E por três vezes me negas o beijo

triste e caído, dormente desejo…

 

Alberto Cuddel®


sábado, 18 de junho de 2016

Sei o teu nome


Sei o teu nome

 

Sei o teu nome,

mesmo que não tenha principiado

que o tempo parado, não se tenha iniciado.

 

Sei o teu nome

Na posse que me concedes a liberdade

Olhar que me toma, que me edifica e acalma

 

Sei o teu nome

Escrito nas ruas por onde passo

No tudo o que sinto,

No tudo o que faço!

 

Sei o teu nome

Chamo-te, desde ontem

Chamo-te, no mundo

Fortalece-me na virtude

De me chamares também

Pelo meu… Sei o teu nome!

 

Alberto Cuddel®


Minuto


Minuto

 

nunca pedi o tudo,

nem que fosse meu, cada segundo,

apenas a serenidade

a liberdade da entrega

a cada lugar deserto

distante de mim, tão perto

se amo, aplaca em mim as dores

caídas na saudade vertida no olhar!

           - amo, se amo!

mas doem-me as noites distantes

a cada minuto que passa…

 

Alberto Cuddel®


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Pensei escrever-te um poema, uma carta

Pensei escrever-te um poema, uma carta

Que recordasse o dia
A chegada, a partida
Das lágrimas secas
Dos motes, das veredas
Do amor, da paixão
Dos sonhos
Que nunca
Se realizarão!

Pensei escrever-te um poema, uma carta
Que te falasse do dia, da noite
Dos desejos, do trabalho
Do calor, do soalho
Do jardim, das flores
Das que floriram no teu olhar
Da vontade inconsolável de te amar!

Pensei escrever-te um poema, uma carta
De um amor que tenha vida
De sussurros, arfados arpejos
De loucas mãos e frutados desejos
De uma noite longínqua esquecida,
De corpos suados nos abraços
Dos brados perdidos nos espaços!

Pensei escrever-te um poema, uma carta
Mas porque escrever
Se não tenho o que dizer
E tu, vontade nenhuma
Para a ler!

Alberto Cuddel®

mau ator


mau ator

Nas ondas,
Altos e baixos,
Texto roubado,
Marteladamente
Irónico
Sentir fingido,
Esfumado nevoeiro,
És sem que sejas
Mais que um ato, toscamente representado
Ode, romance trágico, sentimentos
Que já mais serão teus…
E mesmo assim,
Chegam as andorinhas na primavera!

Alberto Cuddel®






quarta-feira, 8 de junho de 2016

Textos dispersos VI


VI - Da alma,
Siga o caminho. E eu sigo, a luz o ilumina,a alma o conhece. Dizem-me: “é longo, sinuoso, apertado e pedregoso, corte à direita siga por este atalho, mais largo que estreito, onde das paredes brotam rios de mel.” E nesta duvida apertam-me os pés, nas pedras que afasto de mim, pedras que construiram castelos, muralhas sem fim. Rumo traçado reconhecido, de premio certo… sigo o caminho, a candeia que me concedes e a mão com que me amparas, ainda ontem a beijei. Concede-me tempo, para que diante de ti o aplaine e remova toda a areia que te ferem os pés… concede-me a mim, Homem, apenas o direito acompanhar-te…
 
Alberto Cuddel

sábado, 4 de junho de 2016

Dispo(-me)


 

Às vezes

 apenas

  às vezes

   finjo despir-me

    expor de alma

     por entre rosas

       um denso nevoeiro

        lavo-me nas gotas

         escorridas

          lembranças passadas

           sorriso dos sonhos

            paixões desejadas

             às vezes dispo-me

              mantendo-me vestida

               oculta em mim

                às vezes, visto-me

                 de ti

                  expondo-me nua,

                   margem do sonho

                    finjo, sentir, expor-me

                      oculta no reflexo

                       de um espelho

                        arqueado

                          moldado

                            à tua consciência

                              de mim própria!

 

Alberto Cuddel®