quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Solidão


Desfolho pétalas da noite escura,
Amarroto lençóis em reviravoltas,
Anseio a chegada, demorada, segura,
Esperança vã, distancia do tempo,
Fuga suave delirante mar a dentro,
Partida dos sonhos onde me perco!



Desapego


Abandonei-me há intranquilidade do sono
Perdido nos desejos e sentires nocturnos,
Voz que brada no intimo do meu ser,
Agitando verdes canas agitadas pelo vento,
Assobio profundo da coruja nos beirais,
Inquieto voo das traças na fia luz,
Rumino loucas ideias, quente em mim,
Na gélida noite que se estende,
No abraço contigo, fingindo dormir!
Cheio, completo por favor, a noite segue lenta!
Rebusco o sentir na firme vontade!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Fome!



Tenho fome de ti,
Ânsia do teu querer,
Suspeito no amar,
Desejo aprofundar,
De ter, de possuir,
De provar, de amar!
Tenho fome no querer,
Tenho sede do teu beijo,
Pressa e ardente desejo,
Partir ao encontro,
Nesse momento eterno,
Encontro do querer,
Um lugar, um ter,
Aperto de teus braços,
Abraçado nas palavras,
Atiradas, trocadas,
Atiçadas, largadas no ar!

Tenho fome,
Tenho sede,
Vontade de te Amar!

Alberto Cuddel
06/02/2015

Erotismo e Sensualidade – 14

Candidato inédito!


Zurrava o burro bem-falante,
Do alto do seu grande palanque,
E o povo contente o aplaudia,
Pior que o que estava ninguém fazia!

Há povo tonto e ignorante,
Levado ao engano por um burro falante,
Promessas de engano, aos montes fazia,
Ao poder chegado sabia que não cumpria!

Há esperto burro falante, 
Do alto do seu palanque,
Assim enganas o tonto povo oprimido,
Dizendo o que o ouvido queria,
Só o voto interessa na urna nesse dia,
Para no poder encher o bolso corrompido!

Assim ao engano, nenhum burro diz verdade,
Pois o povo não entende o que é a liberdade,
De escolher em consciência o que verdadeiro ouve,
Promessas não cumpridas que no passado houve,
Não fazem escola na memoria na hora de escolher,
Quem melhor nos governa e melhor nos faz viver!

Alberto Cuddel
06/02/2015

Ps. E o burro sou eu? O burro sou eu?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Mar!



Na turbulência das ondas,
Na crista a alva espuma,
Revolta contida,
Espraiada na areia,
Apagado o tempo,
Réstia aflorada memoria,
Sofrer nas ruidosas batidas,
Gritos e palavras ditas,
A calma da baixa-mar,
Reflexos da brancas nuvens,
No azul do teu olhar,
Calma serena,
Perfume de maresia,
Nos poros do teu corpo,
Paisagem de teu corpo que me prende,
Na brisa que embala teus cabelos,
Há vontade de mim,
Que me eleva e me move,
Na dura direção da bolina,
Que na rocha sentada,
Onde quero encalhar,
Em teu delicioso corpo,
Naufragar!
Afogando-me em teu ser!


Alberto Cuddel

05/02/2015
Palavras Desconexas-80

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A viagem, o meu lugar à janela!


Mais uma vez parti,
Uma viagem de ida e volta,
Levei amor, deixei saudade!

Sim parti, mas voltarei!
Não amanhã talvez depois,
Um dia quando sentires a minha falta,
Ai estarei a teu lado!

Olho à minha volta,
Uma solitária carruagem de comboio regional,
Lugares e lugares vazios,
Repletos de histórias
De amor, odio, paixão e guerra,
Guerras travadas na arrogância das palavras,
Amores de palavras suaves e cheios de hipérboles,
Figuras de estilo e figuras de estilo laçadas ao acaso,
Esperando o sorriso do impacto!

Pouco a pouco, meus lugares vazios vão ganhando vida,
Discussões acaloradas sobre futebol,
Os problemas domésticos,
Algures discute-se filosofia,
Ou a teologia dos leigos!
Do outro lado da janela,
Escuridão, reino das trevas,
Cintilam distantes no firmamento estrelas,
Alheias ao domésticos problemas,
Quem sabe se algumas delas
Já não fazem parte da nossa temporal realidade!

Fixo o meu olhar no outro lado,
Um rio! Seguindo meus passos
(ou os do ritmado rolar da carruagem)
Reflexos infindáveis de luzes,
Vão realizando um bailado
(não o dos cisnes, mas o da luz)
Subitamente,

O regresso das trevas,
Fixo-me nas confusas conversas
Da minha solitária carruagem,
Faço uma pausa,
Olho o infinito…

Quebra, algo me prende o olhar,
Uma menina, dessas das historias de adormecer,
Que ternamente se contam as crianças
A caminho do doce mundo dos sonhos.
Passeia-se pelo corredor,
Mostrando seu dotes de modelo profissional,
Na sua inocente imaginação,
O sujo corredor do fim do dia,
É uma famosa passerelle de Paris,
Espera os aplauso do publico,
(nós meros passageiros)
Sinto-me tentado a faze-lo,
Aplaudir sua beleza,
Não o faço, talvez por timidez,
Olha-me nos olhos
Toda aquela ternura de menina me invade a alma,
Um ataque súbito de timidez
Corre para os braços da mãe.

Sei que devia fazer algo útil,
Mas disparo palavras no papel,
Mas o meu pensamento voa,
Para o recente passado,
Penso nela,
Revejo como em filme todos o momentos,
Que ternamente hoje passamos juntos,
No meio de toda esta gente,
Estou só!

O cansaço abate-se sobre o meu corpo,
Os olhos pesam-me, sono,
Levanto-me passeio-me pelo corredor,
Pela passerelle da minha menina,
Olho à minha volta,
Na vã esperança que ninguém esteja a olhar,
E imito os seus passos,
Caindo no ridículo,
Sinto-me de novo criança,
A quem tudo é perdoado!
Minha pequena modelo me olha nos olhos,
E diz à mãe:
- vês, vês, aquele senhor também é modelo!
Felizmente a mãe não a ouvia resmungando com o marido!

Abro os olhos, sonhava, não abandonara o lugar!
Resta-me a saudade, voltarei um dia…
Para junto de ti, em nova viagem…
Em outro lugar junto à janela!

Algures na linha do Douro,
24 de Outubro de 1993

Alberto Cuddel